
Hoje, gostaria de falar de um assunto que considero mais que priori, tanto presentemente, como ontem, e principalmente, nos de época vindoura. Na verdade, tudo e todos pertencem ao que me refiro, pode ser interpretado de várias formas. Quando precisamos, “ele” nos evita, quando o evitamos “ele” nos alcança. É o apogeu de tudo que existe, é o maior inimigo do homem, da espécie, do mundo. Mas é também considerado um aliado, involuntariamente.
Falo de Tempo.
Tempo… É uma palavra forte quando só, sem frase ou um contexto, na verdade, considero Tempo como um contexto que representa vários em si. Mas chega de enrolar, afinal, se estou falando de tempo, seria contumaz de minha parte fazer você, leitor, perdê-lo.
Em 1905 Einstein publicou a teoria da relatividade, que nos confirma que tempo e espaço são coisas maleáveis, hoje, em 2011, decido refletir sobre isto.
Vivo em São Paulo, uma cidade gigantesca com população abastecida, bem abastecida. Como qualquer cidadão de megalópole, temo a violência e o desemprego. Porém, confesso que meu maior medo e, inimigo de todos, é o tempo. Viver em cidade grande não permite desfrutar os luxos do tempo. Na verdade, viver no século XXI igualmente, generalizando, é claro.
Vejamos diferença de percepção temporal entre hoje e outrora.
Antes, escravos dos momentos. Imagine uma comunicação de longa distância, dias se passavam até que uma única mensagem fosse entregue. Viagens, complicado. Imagine as guerras. As marchas eram tão longas, tão prolixas, que no momento do enclave físico os soldados já estavam exaustos e rendidos. Gana não faltava. Em suma: tudo era duradouro, inclusive os dias.
Sentiam tédio. Tédio! Creio que se existe algo que é uma aversão dilema que vivemos agora, é o Tédio. Quem sente tédio nos dias de hoje? Quando digo tédio, não é o “saco-cheio” que preenchido por atividades pífias desaparece sem ao menos afetar-nos. Falo de um tédio maior, algo que somente um hobby fervoroso seria capaz de preencher. O tipo de tédio que se existe, quem o sente provavelmente vive em áreas menos populosas, como o interior-interior mesmo, do Brasil e do resto do mundo.
Sabe, uma vez viajei para uma cidade do interior, o nome não possui relevância, era bem pequeno mesmo. Neste lugar, quando eu passeava a tarde de carro, via pessoas apreciando o dia dependuradas em suas janelas, diversas vezes, sem mais nada a fazer senão encarar o céu e as ruas vazias da cidade. Pensei eu: “como eu agiria em uma situação destas? Provavelmente ficaria louco!”. A verdade é que encaro este tédio como um talismã, algo raro e necessário, não em demasia, mas em pequenas dosagens. Poucos são aqueles abençoados pelo tédio, a maioria das pessoas simplesmente não vê o tempo passar.
Atualmente, dominamos a técnica de preencher todas as lacunas do tempo. Não existe mais Tempo Livre. Se tivermos este tempo livre, estaríamos aprisionando-o com tarefas ou prazeres. E o tempo de reflexão? Este sim é precioso. Agora, são precárias as quantidades filósofos e sociólogos fervorosos como antigamente. Gente que realmente produzia a partir de um vazio (talvez porque não partilhavam o conhecimento verídico que temos atualmente). É claro, o mundo mudou, mas e o passado? E o futuro? Sou apenas eu que me preocupo com estas minúcias? Admito, sou um, escravo assíduo e teimoso do tempo, passo os dias de minha vida lutando contra, e caio na contradição quando anseio os finais das semanas, os “descansos” (que me deixam mais cansado), a verdadeira perda de tempo. Esse tipo de coisa me desperta fascínio, sempre procuro saber sobre as datas. Nos filmes, nos livros, nas peças, em obras, tudo mesmo. E, sempre que me deparo com algo legitimamente antigo, paro por alguns minutos e tento imaginar como funcionava o habitual naquele período. Tanto tempo já se passou!
Passaram-se mais de cem anos desde que um gênio descobriu que tempo é relativo, mais de duzentos que houve a grande revolução do homem pela liberdade, quinhentos anos que chacinavam inocentes em nome de deus e da união, mil anos que os chineses inventaram a pólvora, 2 mil e 10 anos que nasceu a figura mais célebre da história, e, meu favorito, 6 mil anos que inventaram a cerveja. Wow! Isto porque estou contando a partir do que temos certeza, pois o homem produtivo é muito mais antigo.
O Tempo é efêmero. Há quem diga… Àqueles que vivem confinados em rotina abatida, ignóbil, queixam-se da vagareza do mesmo, esperam e cobiçam o dia de seu juízo, um dia virá aquele misericordioso ponto final em suas vidas corriqueiras. Não adianta ficar que nem um zumbi esperando o tempo passar.
Não vamos nos esquecer do fato comum entre todos os seres vivo, o rei dos medos: Envelhecer. É o dilema destruidor de cada dito-cujo, afinal aceitar a velhice não é uma das virtudes do homem. No recente, observamos esta batalha no dia-dia, na mídia, em calçadas da cidade. A mãe que sonha em ser que nem a filha, o pai que usa peruca e anda de conversível, o tio que freqüenta os barzinhos e boates juvenis, e assim vai… O medo de envelhecer.
Uma vez disse um professor meu: “O ser humano não envelhece mais, ele apodrece”. Correto. Quem ousa dizer o contrário? O fato é que fugir da velhice, além de ser uma defesa maníaca, é um equívoco. Parece-me que a imagem do velho, do antigo hoje permanece manchada. Os anciões, os gurus, estes eram grandes símbolos de sabedoria, hoje são carcaças, comédia, renegam sua finitude, e cada vez mais, agem como jovens novamente, uma verdadeira insanidade.
Em 1967 Paul Mccartney lançou a música When I’m Sixty-Four (cunhada em 58), esta fala sobre um casal de jovens amantes que fariam planos de envelhecerem juntos. Para um jovem garoto é mais simples imaginar-se no futuro como um idoso cômodo que vive somente para sua companheira, mas é diferente na realidade moderna. Hoje, Paul vive seus 68 anos, muito bem, é claro. Mas fico imaginando, o que este deve sentir quando ouve esta música? E quando fez 64 anos? Seria só nostalgia? Ou há algo mais? O jovem vive como se o envelhecimento, por natural que seja, nunca virá a bater em sua porta.
O Tempo também nos traz angústia.
O mundo é tão grande e tão pequeno. Pequeno quando queremos adquirir conhecimento. Grande quando queremos presenciá-lo. Sinto incomodado quando vejo algo interessante ocorrendo em algum lugar que não conheço pessoalmente, por exemplo: A Espanha campeã Mundial, a farra nas ruas de Madri; um exemplo menos contagiante: Um jornalista filmando em algum deserto. Pouco importa o local e o evento, o que penso é: “ quando presenciarei aquele mesmo céu que está sobre o indivíduo, aquele local, longe de onde estou, quando?” Isto foi um pouco complicado, imagino, mas o ponto é simples; quantas vezes nós perguntamos a nós mesmos “quando será minha vez de fazer isto? Ou aquilo?”. É o tempo desafiando-nos, talvez devemos fazer o mesmo. Muitos o fazem. Acho que viajei um pouco neste parágrafo.
Vejo meu trabalho, e o dos outros. É isso que quero mesmo pra mim? Isto é normal? Não considero. Trabalho muito mais da metade de minha vida, quando estiver isento disto, estarei velho e não haverá toda essa energia em mim. Mas sem trabalho, não vivo. É um circulo de vícios, idiota, necessário.
Enquanto isso, contemplaremos pensamentos alheios e refletindo com nós mesmos metas e aquisições. Sem arrependimentos, óbvio. Esperando, a chegada dos dias de glória que nos trarão lembranças eternas. Até que “apodreceremos”, como o resto do mundo, como bilhões e bilhões e mais bilhões de pessoas nos confins do tempo. O que podemos deixar contra esta rapidez, são apenas memórias, templos e pensamentos.
Há um velho provérbio árabe que faz referência as pirâmides :
“[O] Homem teme [o] Tempo, [e] ainda [o] tempo teme as Pirâmides”
O homem teme o tempo, e ainda o tempo teme as pirâmides. Nunca ouvi mais intenso.
Os egípcios, filósofos, escritores, músicos e intelectuais já fizeram grandes dissertações sobre o tempo, o fato é que lentamente somos devorados por este até nosso fim, para alguns, um começo, para outros, o arremate. Cabe a nós pensarmos em ser produtivos diante de um mal tão magnífico como este. O tempo.
Agora sou jovem, no futuro não.
O escritor israelense Amon Oz compreende o envelhecimento , diferente dos modernos que contemplam a “juventude em pílula” . Em um de seus livros, não estou certo qual, ao falar de uma vida no deserto, faz uma sugestão: Vá ao deserto, sozinho. Contemple um pôr do sol com um papel e caneta e escreva o básico: “O que se estou sentindo neste momento? quais são as minhas impressões?”. Muitos anos depois você retorna, e repete o ato. Um belo dia, análise os seus dois relatórios, e veja sua percepção antes e depois. Há quem diga que isto ajuda a conhecer melhor você mesmo. Caso contrario, é uma boa forma de verificar amadurecimento, jovens são espontâneos, explosivos, criativos; já os idosos, são pragmáticos, ponderados e mais eloqüentes.
Devemos aceitar o tempo. Hoje não parece um grande desafio, porém, num futuro distante…
Aproveite bem o resto de seu tempo….